Primeiro Rascunho

Um projeto do Teatro do Bairro Alto
www.teatrodobairroalto.pt

O primeiro rascunho da História está quase sempre errado —
mas temos na mesma de tentar escrevê-lo.

Teju Cole, maio 2020



No verão passado, o TBA convidou três artistas. Cada uma delas fez um primeiro rascunho a partir da experiência do último ano e meio. Essa peça foi enviada a outra pessoa, que fez o seu rascunho e o enviou a uma terceira. Temos assim nove peças que respondem aos tempos que vivemos e se respondem umas às outras; uma estafeta ou cadeia de transmissão em que apenas o primeiro elo foi escolhido pelo TBA: o destinatário final é o público.

Regina Guimarães convidou Marta Caldas, que convidou Thierry Simões; Mariana Vieira convidou Amanda Baeza, que convidou Ricardo Martins; Lolo Arziki convidou ROD, que convidou Petra.Preta.

Depois de Essenciais e Recolher Obrigatório, projetos digitais do TBA com autorias múltiplas, Primeiro Rascunho é de novo um momento de programação não-presencial. Mas não acontece apenas online: para além de um site, haverá um livro, com materiais não totalmente coincidentes. Em Primeiro Rascunho há textos, desenhos, filmes e fotos; vão do abstrato ao documental, da cor ao preto e branco; há peças que permanecem e outras que ficarão visíveis apenas durante um mês; algumas recuam no tempo, outras são convites que começam do zero e outras ainda, retomando as anteriores, são segundos e terceiros rascunhos. Aí estão para quem por sua vez lhes quiser pegar.

Dezembro 2021

History's first draft is almost always wrong —
but we still have to try and write it.

Teju Cole, May 2020



Last summer, TBA invited three artists. Each made a first draft based on their experience of the last year and a half. That piece was sent to someone else, who in turn made their draft and sent it to a third artist. So we have nine responses to the times we're living, while also responding to each other; a relay of sorts, a transmission chain where only the first link was picked by TBA: the final recipient is the audience.

Regina Guimarães invited Marta Caldas, who invited Thierry Simões; Mariana Vieira invited Amanda Baeza, who invited Ricardo Martins; Lolo Arziki invited ROD, who invited Petra.Preta.

Primeiro Rascunho (First Draft) doesn't take place in person, but it's not an exclusively online event: apart from a website, there will be a book, with significant but not total overlap between the two. Primeiro Rascunho has texts, drawings, films and photos; it can be abstract and documentary, black and white and in colour; some works will remain available, while others will be visible only for a month; some go back in time, others are invitations that start from scratch, and others still rework the ones preceding it, like second and third drafts. Here they are, so that they in turn can be picked up.

Um projeto do
Teatro do Bairo Alto

Obras de
Amanda Baeza
Lolo Arziki
Mariana Vieira
Marta Caldas
Petra.Preta
Regina Guimarães
Ricardo Martins
ROD
Thierry Simões

Design e código do site
Nonverbal Club

Design do livro
Ana Teresa Ascensão

Zero mais vinte e cinco rascunhos
para obras alheias

O direito ao rascunho abrange o dever do erro. E se a isso se resumisse já não seria pouco...
Acrescente-se todavia que a primavera não é um rascunho do verão que não é um rascunho do outono.
E o inverno não chega a ser um erro de extenuada juventude.

Rascunho 0

lembro-me de subir e descer
incandescentes escadas.
semeando novos degraus.

graças ao meu pequenismo,
enterrava e desenterrava
as memórias do futuro.

até podia gabar-me
de acordar o que nomeio
construindo o que recordo.

Mnêmê e Anamnesis
vigiam este estaleiro
com olhos de lago gelado

e mãos desfolhando os dias.

Rascunho 1

na paisagem catedral
busco a porta das traseiras
na paisagem biblioteca
a prateleira mais baixa

Rascunho 2

conversa de barco bêbedo
dentro da garrafa opaca
mas ventre silente
transparente



Rascunho 3

homens sem arma
nem mira nem mar
nem estrela de papel
nem papel de estrela

Rascunho 4

desarrumo a casa
para poder escavar ideias
até a saída voltar a ser
entrada mal frequentada

Rascunho 5

um sentido estrito menos estreito
um sentido mais lato e consentido
um sentido próprio mais portátil
e um sexto sentido menos único



Rascunho 6

injustamente se castiga
sempre que justiça se faz
e com as próprias mãos
se obriga



Rascunho 7

barcos parados
braços parados
cobra canhestra
palavra de desonra

‒ abraço a superfície
para combater
de peito aberto
a ditadura das profundezas

Rascunho 8

fechada para restauro impessoal
fechada para obras de manutenção
fechada para descanso do pessoal
fechada para destruição do sujeito



Rascunho 9

mundo de agência e agenda,
de agendado, de agenciado
curatorialmente doente
comissariadamente policiado



Rascunho 10

inseguro-me
à luz do relâmpago
para não cair na cilada
da certeza à mesa

Rascunho 11

tinha mãos de ferir teclas
mas guardadas nos bolsos
e dispostas a perder oportunidades



Rascunho 12

o corpo dava-lhe pelos joelhos
a alma chegava-lhe à cintura
a água quase lhe tapava as narinas
mas o mundo afastava-se para a deixar passar



Rascunho 13

como num jardim ao cair da noite
só se ouviam vozes e melodias
fora de vista
fora de alcance do cansaço



Rascunho 14

abre-se a cancela do pomar
abre-se o fruto amadurado
e da plenitude do vazio
irrompe uma criança inacabada
a quem a bruma não censura
o seu defeito de fabrico

Rascunho 15

o pé sobre o peito
o joelho no chão
a mão incerta
o olho infalível

eu prefiro
o perfume
que perfura

Rascunho 16

é a avó capaz
de descrever com inesperada eloquência
a sua vida a andar para trás.
é o lugar fixo dos talheres na mesa,
é o subentendimento dos comensais
e são as competências afins.
é a voz do trovão do pai
que racha a casa ao meio
e são as tarefas diárias de reconstrução.
é a mãe a podar os ramos ladrões
e são as pragas que ela roga
contra o pensamento mágico.
é a filha mais velha
que deseja ser trocada
a cada nascença.

Rascunho 17

seria possível transpor
alguns versículos do livro da génese
para algum paraíso fiscal.
seria possível transferir
a indizível árvore do conhecimento
para um indizível paraíso artificial.

Rascunho 18

recordar quão romântico é
o imaginário das grutas e dos abismos
das escarpas, das crateras e das minas
dos cofres-fortes e dos segredos bancários.
ou não?

Rascunho 19

o extracionismo singular.
a extracção do plural.
o extracionismo lírico.
a extracção do lítio.

a contaminação dos lençóis.

Rascunho 20

O PASS
  A TEMPO
O PAS
SADISMO
O PAS
SANITÁRIO


O PASSAR
A LIMPO
O PASSAR
À HISTÓRIA
O PASSAR
DAS MARCAS

COM OU SEM QR CODE?
COM OU SEM QUEER CODE?

Rascunho 21

Ouvi, umbígamos e nariztocratas,
o que o tremoço de recados relatou
interrogalado no seu estuk-tuk
pela crua obrigada de costumes:

«Sob dum guarda-sol de pouca dura
uma esbelta moralista telefónica
discurtia acerca de camise en scène
com uma pugilata de sardignas
esperando da maria vai com as ostras
tão-somente perguntas de chá chá chá
e monossilábicas respostas de pescada.
Porém
frente a um nostalgin-tonic gelado
as palarvas são mantras de retalhos
uma no escravo outra na dentadura
e os acontecimentos armados
sabem até não foder mais
a rebuçagrados respeitorais.»

Rascunho 22

Os meus ouvidros de mercador
escutaram com toda a atenção arterial
a lamentira do regador de corno
e discurso indirecto livre da jornalesma.

Ó tântrica melancoleira
que chamanas o mafarricochete amagro
Ó carapau de virar estirpes
que soltas no zénite o teu corcel negralha
rasgando o ar incondicional
até virares borboleta de imprensa.

Ó tradicionários e corpulendários
Ó supermecabras cheias de nove horas
Ó laranjos papudos em promoção de censura
respeitai o distancianeto social
só abrem as pernas distanciadamente
etiquê-taque-etiquê-taque-etiquê-taque.

Ai... vasculhar, vascolher...
De sopa.
Se calhar...

Rascunho 23

NOTA DE CIRCULAÇÃO VIRAL

no país de brancos costumes
onde pululam os ratos
paridos por uma única montanha
juntam-se os doentes queridos
com os indolentes de contacto

mas eis que a palideusa de outono
insistente na caducidade eterna
já se encomendiga a nós
tal como escrito entre linhas
numa antiga enciclopedra

Rascunho 24

TREPADEIRAS E RASTEJANTES

devastaram o jardim à minha porta
pilharam plantas sem valor outro
que não o do apego às formas vivas
que não o do afecto que faz matéria
que não desejo de as imaginar
me serem tecto sem telhado visível
atalho para o céu à luz da vela
quando lá se esconde estrela a estrela
toda a escuridão possível

resta-me esperar amar cuidar
as ervas mais que daninhas
sufocadas entre as rugas do cimento
mas como eu teimosamente respirando
enquanto tanto quanto por enquanto

Rascunho 25

eu não conseguiria recorrer à nudez ofensiva
mas ela já me inclui nas suas cores de carne
que são a paleta pouca
dos maquilhadores de cadáveres

porém
se plantaram fósforos de ambos os lados da estrada
se plantaram bandeiras nas costelas
e bananeiras nos pátios dos castelos
se plantaram filas de seringas e ciprestes nos parques
se plantaram uma selva de setas nas escolas
depois de arderem os livros onde houvera recreio
talvez estejamos dispensados
dessa infindável cerimónia fúnebre
amiúde designada como ESCRITA

Regina Guimarães, aka Corbe, nasceu no Porto, em 1957. A par da sua quotidiana escrita de poemas, tem desenvolvido trabalho nas áreas da tradução, da canção, da educação pela arte, das artes do palco, das artes visuais, do cineclubismo. Foi docente na FLUP, na ESMAE e na ESAD. Foi diretora da revista de cinema A Grande Ilusão, presidente e fundadora da Associação Os Filhos de Lumière, programadora do ciclo permanente O Sabor do Cinema no Museu de Serralves. Integrou o coletivo que, a par de outras atividades reflexão, publicou o jornal PREC. Coproduziu e coorientou o projeto Nove e Meia, cineclube nómada e o projeto O Saber do Cinema, cineclube de rua. É cofundadora do Centro Mário Dionísio — Casa da Achada. Com Ana Deus, fundou a banda Três Tristes Tigres e empreendeu múltiplas experiências artísticas. Colaborou com outras bandas, nomeadamente os Clã. Realizou inúmeras ações de criação em torno da palavra dita e cantada. Organiza, de há mais de uma década a esta parte, a LEITURA FURIOSA Porto. Tem orientado oficinas de escrita e de iniciação ao cinema. A sua obra videográfica — sob a forma de Cadernos — já foi alvo de retrospetivas. Nos últimos anos, a sua atividade como argumentista e dramaturga intensificou-se e alargou-se ao cinema de animação. Aspira a estar em todo o lugar onde haja uma luta justa a travar. Vive e trabalha com Saguenail desde 1975.

Marta Caldas

Olho desviado

Exercício de desenho. Barro fresco p+b. Lâmpada. Câmara. 21 dias. Setembro 2021

Marta Caldas (Lisboa, 1982) expõe regularmente as suas obras desde 2006. Para além de exposições e projetos individuais, tem participado em exposições coletivas e colabora com frequência em projetos e "peças — exercícios" com outros artistas, nomeadamente com Armanda Duarte, Eduardo Petersen, Maria Teresa Silva, Mariana Ramos e Thierry Simões. Em 2012, integra o Viewing Program do Drawing Center, Nova Iorque. Publica em 2014 e 2018, pela Editora Hélastre, os livros Abecedário abetardário e Fotografismos e instantâneos, com Regina Guimarães. Em 2019 e 2020, publica pela Editora Douda Correria os livros Assembleia e e aquáticos. Vive e trabalha no Alentejo.

Thierry Simões

Palco

Modos para o restabelecimento do ouvinte ouvido. Apresenta-se através de uma gravação (ensaio), juntamente com um enunciado (projeto), numa proposta para a repetida amplificação do som do corpo ao beber um copo de água — ouvinte ouvido, o que eventualmente nos rejoga.

Thierry Simões (França, 1968) é um artista franco-português. Vive e trabalha em Lisboa.

Mariana Vieira


O encontro inesperado do diverso

O título é oriundo dos escritos de Maria Gabriela Llansol, onde em jeito de diário confluem personagens de tempos e realidades distintas. O ato de pegar em sons e alinhá-los ao meu gosto sempre me pareceu um pouco a mesma coisa. Como conciliar sons de naturezas distintas numa única unidade? Como abordar o facto de certos sons serem, aos nossos ouvidos, mais “abstratos” do que outros? Que novos significados emergem quando sons do quotidiano são apresentados fora do seu contexto habitual? Estas questões estão sempre presentes no meu trabalho de composição, particularmente nos últimos dois anos.

Nesta peça, exploro maioritariamente processos de síntese granular. Este tipo de síntese sonora divide um sample em pequenas partes (com duração entre 1 e 50 ms) e reproduz esta divisão segundo parâmetros previamente estipulados.

Em termos do material sonoro, interessou-me explorar a interação entre gravações de campo (utilizo fontes como cigarras, sinos, vozes em close-up e captura de ambiente, ou sons mecânicos de um tear) e samples recolhidos numa improvisação feita com um sintetizador modular.

Em termos de organização formal da peça, está dividida em quatro momentos que partem de uma representação visual do som, que tentarei expor por palavras:

1.    Ondulação de densidades
2.    Nuvem com interferências
3.    Linha com interferências
4.    Ondulação de alturas

Mariana Vieira (Sintra, 1997) é uma compositora residente em Lisboa. A sua música foi apresentada em festivais como Young Euro Classic (Alemanha), Crossroads (Áustria), L'Espace du Son (Bélgica), Audio Art Festival (Polónia), Monaco Electroacoustique, Aveiro_Síntese e Música Viva (Portugal). Concluiu a licenciatura em Música — Composição na Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou com os compositores Carlos Caires e Jaime Reis. Frequenta atualmente o Mestrado em Ensino de Música na mesma instituição. Interessa-se pela produção de projetos artísticos, trabalhando nesta área paralelamente à sua atividade enquanto compositora. É diretora executiva do Festival DME — Dias de Música Eletroacústica, do Lisboa Incomum, e integra a associação EMSCAN, desenvolvendo projetos de criação, programação e formação na área da música erudita contemporânea e eletroacústica.

Amanda Baeza


Anatomia de um som
Técnica mista (lápis e digital)

Sons que se transferem para o papel, oriundos da peça criada pela Mariana Vieira, agora dissecados pela caneta, alojados num novo espaço, numa nova experiência. Como é que estes sons se manifestaram na minha mente? Como se relacionam com as minhas memórias do ano passado? A conexão foi imediata. O resultado desdobrou-se em momentos, histórias, personagens e movimentos que existem nos seus universos próprios, fragmentos aparentemente isolados, mas que se complementam e comunicam. Abstratos, mas em sintonia. Anatomia de um som é o rascunho, o esqueleto de sensações sonoras e visuais deste tempo que nos encapsulou durante tão longos meses.

Amanda Baeza (1990) cresceu em Valparaíso, Chile. Licenciada em Design, o seu percurso no campo editorial começou com o zine Mr. Spoqui (2009-2013), um projeto criado em parceria com os seus irmãos mais novos. Este universo mais tarde expandiu-se para a BD, numa coleção de poemas visuais curtos compilados no livro Bruma, publicado pela Chili Com Carne em 2017. Ao longo dos anos tem colaborado com editoras como a Kuš!, a Fulgencio Pimentel e a Lagon Revue. No campo da ilustração, o seu trabalho tem aparecido nas revistas Bon Appétit, Forge, e Queue da Netflix, entre outras. Atualmente reside e trabalha em Portugal.

Ricardo Martins


Lascas

Nove fragmentos, respostas sonoras ao estímulo visual das propostas da Amanda. Tentam ser um gesto curto e certeiro. Pancada de cinzel em pedra, a criar lascas. São essas Lascas que apresento, parte de um bloco maior, de imaginação. De mais desenhos, de outras músicas.

Ricardo Martins foi baterista de Adorno, Lobster e Cangarra, integrando ainda I Had Plans e Suchi Rukara. É motor do trio pós-punk Papaya, é parte dos Jibóia, de Earth Electric, de ALGUMACENA, de BRUXAS/COBRAS, e dos míticos Pop Dell'Arte, tornando-se um dos mais ocupados e respeitados bateristas da música portuguesa. Colaborou com Filho da Mãe e Dada Garbeck; juntamente com Joana Guerra, musicou a peça Nós Matámos o Cão Tinhoso para a Companhia JGM. Aí desenvolveu, a solo, música para as peças Diário de um Migrante e A Casa de Bernarda Alba. Com a Jeff — editora londrina — apresentou o seu primeiro projeto a solo, revelando digitalmente ao longo de um ano uma canção por mês e resultando na edição do 12" Furacão. Ainda a solo criou o projecto Silvar, onde dirige outros músicos em composições que têm por base o ritmo.

Lolo Arziki



Um dia ta passa

Filme Disponível até
22.01.2022

Roteiro e realização
Lolo Arziki

Direção de fotografia
Edoardo Brusco

Produção de áudio
Xin Yum

Montagem e pós-produção
Felipe Drehmer

Coprodução
Teatro do Bairro Alto

Lolo Arziki (Cabo Verde) é cineasta.

ROD



Você tá melhor

Conceção e texto
ROD

Captação de áudio
Xin Yum

Edição de áudio
Dusty Whistles

Você tá melhor? Eu ouvi essa pergunta durante dias. Achei que era Covid. Meu médico também achou. Fiz vários testes e no final das contas era só uma gripe forte que durou 20 dias. Antes de ter certeza, eu fiquei com medo de ser Corona. O vírus não era apenas um sinal de uma doença que podia me matar, mas era também um marcador social que implicava a distância e o isolamento. Eu repetia para mim mesmo: não é Covid. Não é Covid. Não é Covid. Eu fiquei cansado de lutar com minha cabeça. Eu tinha que aceitar que era apenas uma gripe. Uma gripe que eu nunca tinha experimentado e que veio bem na época mais bizarra da minha história aqui na terra. Você tá melhor. Você tá melhor, sim. Eu sei que você tá melhor. Eu repetia mentalmente. Às vezes eu repetia de frente pro espelho olhando pra minha cara toda fodida de febre, de tosse, de dor de garganta. Não podia ser Covid. Você tá melhor? Todo mundo me pergunta no grupo do Zap. Ninguém me dava bom dia mais. E eu respondia pra toda gente: sim, eu tô melhor... mesmo estando todo destruído.

Lidar com a expectativa alheia com frases positivas é muito mais fácil do que entregar a verdade da sua destruição. Dá muito mais trabalho ter que gerir a inquietação alheia quando a gente conta a verdade sobre nossa real condição. Eu fingia e repetia: Sim, eu estou melhor. Era uma fórmula hipnótica que eu usava para evitar o cansaço da doença e das perguntas. Eu decidi estar melhor. Assim, eu podia produzir um efeito esperado. O efeito da cura. O efeito de paz para o outro. Porque para mim, a paz era a quietude até que meu corpo estivesse pronto outra vez.

Repetir uma sentença, ainda que ela seja virtual, por vezes pode criar uma verdade. Mas a repetição é canseira. A repetição é anestesia. Quanto mais eu repetia, mas eu tinha a sensação de que ninguém me escutava. Quanto mais eu ensinava e me doava em sinal de esperança para que o outro pudesse me ouvir e se calar, mais eu sentia que meu mantra era feito de palavras vãs. Eu sentia que o outro só queria uma sentença positiva pronta como resposta. Sim, este corpo está melhor.

Nesse jogo de repetições eu também sentia que tava na hora de parar. Chega uma hora que a gente cansa de tentar ensinar alguém. Chega uma hora que nosso corpo recua em proteção, fazendo da solitude o melhor remédio contra a exploração do outro; o outro que tem sede não de me ver apenas bem, mas de se sentir bem consigo mesmo para que não tenha em si a dolorosa necessidade de ter que lidar com um desconforto qualquer. O desconforto de saber que não, eu não tava melhor. Um desconforto em forma de petição para que o outro espere. Para que o outro se recolha em si em prol de mim. Chega uma hora que o corpo cede e cessa. Chega uma hora que a gente se cansa do descaso do outro em te escutar. Em entender que, na sensibilidade da partilha da nossa humanidade, 20 dias de gripe não deixa nenhum corpo melhor.

ROD

Rodrigo Ribeiro Saturnino, aka ROD, é sociólogo digital, artista visual e ativista gráfico. Brasileiro, negro, queer a viver em Lisboa desde 2007. É pesquisador Pós-Doc no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho com uma bolsa da FCT. Sua pesquisa é voltada para as intersecções entre a economia da partilha e o racismo algorítmico através de plataformas digitais da Internet. Tem doutorado em Sociologia (ICS-UL) e mestrado em Comunicação e Cultura (FLUL). Das suas publicações destacam-se os livros A construção do imaginário social dos imigrantes brasileiros em Portugal nas redes sociais da internet: o caso do Orkut (2016) e A Política dos Piratas: Informação, culturas digitais e identidades políticas (2017). Realizou exposições a solo na Feira Gráfica de Lisboa (2020), na Casa do Capitão (2021) com Gisela Casimiro, no Espaço Damas (2021), no Festival Bairro em Festa do Largo Residências (2021) ou na Galeria Not a Museum (2021) com curadoria de Hugo Dinis. Participou em festivais e projetos como Walk & Talk Açores 2020, Comunidade enquanto Imunidade com curadoria de Ana Cachola e Campo de Treino (2021), com curadoria do Sos Racismo, Jota Mombaça e Filipa César. Colabora como designer gráfico para projetos focados na celebração da cultura negra e no combate ao racismo como a Festa Bee, Projeto Morar — Movimento de Rua Antirracista e Grupo Educar, entre outras. É membro da DJASS, colabora com o Espaço Alkantara e é cofundador da UNA — União Negra das Artes.

Instagram: @rod_lx
rodrigoribeirosaturnino.net

Petra.Preta



Manchê Bom

Vou repetir-me:

Estar na margem é fazer parte de um todo que não te reconhece como parte do corpo principal. Implica uma travessia repetitiva de fora para dentro. E com o entrar, vem a obrigação de sair. De lá para cá, resistir à violência. De cá para lá, resistir à violência.
Tabanka foi a proposta de um espaço seguro e mutável, entre a proteção e a cura. E este é um caminho para lá chegar.


Um mapa ao contrário, onde se devolvem tesouros. Porque isto é sobre inverter percursos e a tentativa de reclamar o espaço do sonho.

*+ uma nota para lembrar que o descanso é também uma medida de liberdade

Realização, performance,
texto e pintura

Petra.Preta

Fotografia
Saint. / Jaylson da Graça

Edição e montagem
Nêga Filmes

Paisagem sonora
Petra.Preta e Maíra Zenun

Edição de áudio
Sara Morais

Graffiti
Miratejo - autorxs desconhecidxs

Coprodução
Teatro do Bairro Alto

Agradecimentos
Lisa Monteiro e Fernando da Graça,
Diogo Simões, João Reis Moreira,
Maíra Zenun, Vera Marques,
à todas do Hangar
(Centro de Investigação Artística)
e O Camões Preto

Petra.Preta (Sara Fonseca da Graça), licenciada em Teatro pela ESTC, é artista pluridisplinar e arte-educadora. A partir do seu lugar de fala, questiona-se sobre problemáticas identitárias e de sistemas sociais e as relações de poder que operam como herança de um passado colonial. A forma de expressão não é o ponto de partida, é um veículo para ressignificar, transformar linguagens e criar imaginários seguros e de empoderamento para corpxs marginalizadxs.

Iniciou o seu percurso a solo com a exposição Por Uma Natureza das Coisas, no CNAD em São Vicente, Cabo Verde. Em 2019, de regresso a Portugal, cria o livro de autor #MÚSICASDOMUNDO, um objeto que se foca na experiência da consciencialização enquanto mulher negra através de ilustração e texto. Em 2020 regressa à escrita para teatro, no apoio à dramaturgia do projeto Aurora Negra. Em 2021 apresenta a instalação Tabanka, da Proteção à Cura na Rua das Gaivotas 6 (Lisboa) e em Santarém. O seu mais recente projeto Solo Status é uma performance resultante da residência All Tomorrow’s Parties, projeto-curadoria do coletivo SillySeason.

O objeto é uma reflexão sobre a falta de representatividade de corpxs negrxs nas artes e os impactos resultantes dessa exclusão. As pinturas criadas para Solo Status são parte da exposição Humor Negro, apresentada no evento Kilombo, com curadoria do coletivo Aurora Negra. Solo Status e Manchê Bom são parte de uma trilogia em construção, três pequenas notas para lembrar que a felicidade, o descanso e o amor são também medidas de liberdade.